#LazerEmCasa: A Negação do Brasil

Já se perguntaram por que pessoas pretas na maioria das vezes não têm papel de destaque na TV brasileira? Ou por que só aparecem em papéis como empregadas, seguranças, papéis que relembram a situação de negros escravizados? O documentário A Negação do Brasil, que é a nossa indicação do #LazerEmCasa desta semana, aborda muito bem o assunto. Dirigido, editado e roteirizado por Joel Zito Araújo, o documentário de 2000 faz uma viagem na história da telenovela no Brasil e, particularmente, analisa o papel nelas atribuído aos atores negros, que sempre representam personagens mais estereotipados e negativos. Baseado em suas memórias, fortes evidências de pesquisa e nos depoimentos de atores como Ruth de Souza, Zezé Motta, Milton Gonçalves e Tony Tornado, o diretor aponta as influências das telenovelas nos processos de formação da identidade étnica dos afro-brasileiros e faz um manifesto pela incorporação positiva do negro nas imagens televisivas do país. Uma das curiosidades do documentário é que no período de seu lançamento eram discutidos os processos de implementação das cotas nas universidades públicas, o que fala muito sobre a cultura hegemônica brasileira que foi construída pelo sistema escravista. O argumento usado pelos opositores às cotas raciais nas universidades era o de que se os pretos estavam atuando nas telenovelas brasileiras, eles poderiam estar nas universidades por “mérito próprio”. Se são capazes de atuar na TV, são capazes de ingressar nas universidades. Entretanto, o argumento não só é raso como também é equivocado. Duas questões são elucidadas no documentário que podem refutar esse discurso hegemônico: a primeira é a participação reduzida dos negros nas telenovelas, sendo sempre a minoria, tal como nas universidades; a segunda é que os papéis reservados para os negros são sempre estereotipados, marginalizados e subalternizados. O que a branquitude temia era ver o(a) jovem preto(a) graduando, especializando-se, construindo saberes nas universidades e não mais limpando o banheiro destas.

É patente, portanto, a relevância do documentário para aquele período e também para (re)pensarmos a atualidade, já que a obra denuncia problemáticas que ainda hoje encontramos na teledramaturgia. A Negação do Brasil é um convite para refletirmos e questionarmos as representatividades e a construção das identidades apresentadas na televisão.

Bom filme a todos(as)!!

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