#LazerEmCasa: Última Abolição

A dica de #LazerEmCasa desta semana é A Última Abolição, um longa-metragem no formato de documentário dirigido por Alice Gomes.

Lançado no ano de 2018, o filme conta com a participação de pesquisadores(as) e doutores(as), em sua maioria negros(as), que procuram desvendar os véus colocados sob o período da abolição da escravatura.

Para isto, a obra aborda o protagonismo negro na luta pelo fim da escravização, as formas e as estratégias de resistência dos escravizados, os movimentos abolicionistas e o papel das mulheres negras na resistência.

Logo no início, o filme evidencia que a resistência do povo negro foi a grande responsável pela abolição da escravatura e não a figura da princesa Isabel, ao contrário do que se pensa no senso comum. Ao fazer isso, o documentário reserva exclusivamente aos escravizados o protagonismo na luta pela sua libertação.

O papel das mulheres negras nessa luta também ganha destaque, porque são apresentadas as estratégias que figuras femininas como Anastácia, Maria Felipa de Oliveira, Tia Simoa e outras usavam para resistir, como – por exemplo – o envenenamento de senhores, a acumulação de dinheiro e a compra da alforria dos filhos mais novos, ao invés da própria.

Essas mulheres arquitetaram e planejaram caminhos para alcançar a liberdade. Todas as lutas de homens e de mulheres escravizados(as) resultaram na abolição, nada foi dado a eles caridosamente por nenhuma representante branca.

Mas um questionamento é indagado assertivamente por uma das pesquisadoras: até onde vai a liberdade dessa gente? A assinatura da conhecida lei Áurea garantiu a “libertação” dos escravizados, mas não concedeu terras para que eles pudessem viver; não possibilitou formas humanizadas de trabalho e/ou produção; em nenhum momento promoveu qualquer tipo de ressocialização; não assegurou educação de qualidade e nem mesmo moradia ou saneamento básico. Sendo assim, a lei tornou oficial o processo de marginalização do povo negro.

O olhar atencioso às favelas; aos cargos que são majoritariamente ocupados por pessoas negras, à diferença salarial em mesmo cargo entre brancos e negros e até mesmo entre homens negros e mulheres negras; ao genocídio da juventude negra; à distribuição da população carcerária no nosso país, onde 64% dos presos são negros. Tudo isso evidencia o óbvio: as sequelas de um longo período de escravização. E todas essas questões são abordadas no documentário, traçando um percurso que vai da pré-abolição até a pós-abolição.

A Última Abolição faz o que Walter Benjamin chama de estudar a história a contrapelo. Por muito tempo – e isso perdura até hoje – a história foi contada pelo colonizador branco, a perspectiva histórica adotada era a perspectiva eurocêntrica, por isso, tantas defasagens na memória social acerca do período de escravização. No documentário, a história é contada por pesquisadores e doutores negros, partindo do ponto de vista interno, é a história do povo negro contada pelo povo negro e não pelo colonizador, é a perspectiva antirracista sendo adotada no lugar da perspectiva eurocêntrica. E isso ressignifica a visão sobre nossas vivências, sobre os espaços que nossos corpos ocupam e sobre a nossa luta constante contra o racismo.

Bom filme!

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