#LazerEmCasa: Na Minha Pele

A dica do #LazerEmCasa do PET Conexões Baixada desta semana é o livro Na Minha Pele, escrito por Lázaro Ramos e publicado em 2017 pela editora Objetiva. O soteropolitano Lázaro Ramos tem trabalhado, ao longo da sua carreira, como ator, produtor, diretor e escritor.

A obra Na Minha Pele é, como o próprio Lázaro a descreve e assim como a autora Conceição Evaristo aplica a chamada Escrevivência, uma viagem pelas narrativas de experiências vividas por ele. Ainda que o tom autobiográfico esteja presente em diversos momentos, o autor afirma: “sempre que eu falar de mim neste livro, estarei também falando sobre você (…)”, o que estabelece uma relação de identificação com o leitor.

A viagem que se inicia ao ler o livro torna-se um diálogo entre autor e leitor, com a escrita leve e afetiva de Lázaro, ao abordar questões tão necessárias num perfeito equilíbrio entre humor e seriedade.

Lázaro conta como iniciou sua carreira, no Bando de Teatro Olodum, e como a arte, a partir dali presente em toda a sua trajetória, mostrou-se como um despertar para a consciência racial e como uma potencializadora do seu ativismo antirracista, que é questão de todo e qualquer cidadão brasileiro, e não apenas “uma questão dos negros do Brasil”.

A memória ancestral também se apresenta como base para que a viagem seja feita, logo no primeiro capítulo Lázaro dirige-se a sua mãe, “porque qualquer bom filho que saia para uma aventura como esta precisa deixar uma mensagem para a mãe” (palavras de sua avó Edith). Este gesto diz muito sobre o quanto a valorização e o respeito por aqueles que nos precederam estão presentes nas famílias afrocentradas conotada como “a bênção aos mais velhos”. Há uma luta para que nossas memórias não se percam, pois houve – e ainda perdura – um processo eugênico de apagamento das histórias dos nossos antepassados, da nossa cultura e da nossa religião. Isso se evidencia no modo como é tratado o passado africano: como etnografia, como um recorte; diferentemente de como é tratado o passado europeu: como “a História”, como a norma. Já na obra em questão, as memórias familiares estão presentes em inúmeros momentos das narrativas que se apresentam.

A narrativa da trajetória artística bem sucedida também revela os altos e baixos presentes na vida de qualquer pessoa. Há uma preocupação por parte de Lázaro para que sua história de sucesso e ascensão não seja tomada para argumentação do discurso meritocrático, usado para silenciar as inquietações provocadas pela desigualdade racial, por isso, ao falar de sua experiência, o autor tem o cuidado de não tratar sua história como regra, mas sim como exceção.

Todo o livro é atravessado pela perspectiva racializada, mas num discurso que não se prende ao “problema do racismo no Brasil”, já que Lázaro fala, e diga-se muito bem dito, que racismo não é uma problemática negra e sim de quem comete. Prosseguindo, a passagem disserta sobre família, arte, trabalho, encontros, desencontros, preocupações, identidade, conquistas, e todos os sucessos e percalços que teve em sua caminhada. Esta é a mensagem que constantemente a população negra busca passar: nós temos outras narrativas para contar, além do racismo e das violências que sofremos, queremos devemos evidenciar a nossa subjetividade e pluralidade.

Na Minha Pele é a viagem perfeita para se fazer sem sair de casa, com boa companhia e um trajeto repleto de boas descobertas. Aproveite!

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