SEMINÁRIO DISCUTE NO IM/UFRRJ A NEGRITUDE NA AMÉRICA LATINA

Entre os dias 26 e 28 de novembro passado, o Instituto Multidisciplinar da UFRRJ (câmpus da Universidade Rural em Nova Iguaçu) sediou o I SEMILLAH – Primeiro Seminário Latino-Afro-Hispânico, com o tema “Desafiando fronteiras, construindo redes”. Contando com a presença de professores e pesquisadores do Brasil, Colômbia, Cuba, Estados Unidos, México e Peru, o evento teve como objetivo a construção de uma rede transnacional e interdisciplinar de circulação de saberes sobre as populações negras no espaço latino-afro-hispânico, reunindo estudiosos de diferentes partes do Brasil e das Américas, na compreensão de que as identidades negras não são essenciais, mas elaboradas de forma relacional, contextual e diaspórica.

A Comissão Organizadora do I SEMILLAH foi composta pelas professoras Fernanda Felisberto, do Deptº de Letras do IM, Doutora pelo Programa de Literatura Comparada da UERJ e Tutora do PET – Conexões Baixada do IM/UFRRJ; Camila Daniel, do Deptº de Ciências Sociais do Instituto Três Rios, da UFRRJ, Pós-Doutora pelo Morgan State University (EUA); Joselina da Silva, do Instituto de Educação da UFRRJ na área de pesquisa Educação para o Campo e Pós-Doutoranda pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Peru; e Geni Ferreira Guimarães, Doutora em Geografia pela Universidade Federal da Bahia e professora do CTUR (Colégio Técnico da UFRRJ).

Em sua fala proferida durante a Mesa Interdisciplinar “A ação transformadora das populações negras nas Américas”, a professora Fernanda Felisberto abordou a presença das mulheres negras na Literatura Brasileira como forma de resistência, na perspectiva de se contar uma “outra História” acerca desse protagonismo intelectual negro, em contraposição à história oficial. Em sua fala, a professora Fernanda visibilizou outras formas de produção que não passam necessariamente pelo formato e padronização atuais. Em outras palavras, ela destacou as múltiplas formas de se produzir saberes e literatura, por outros grupos não hegemônicos na sociedade.

A primeira palestra desse primeiro dia foi da professora colombiana Anny Ocoro Loango, doutora em Ciências Sociais pela FLACSO na Argentina e que veio falar sobre o movimento de mulheres negras na Colômbia e Argentina. Em seguida, foi a vez da professora Camila Daniel, do ITR/UFRRJ, que apresentou um relato sobre a presença negra na Antropologia, a partir de sua própria trajetória e experiência. Ela descreveu em sua pesquisa como foi o impacto etnográfico de sua convivência e interação social com imigrantes peruanos, aqui no Rio de Janeiro e nos Estados Unidos. No Rio, houve uma correlação classificada por ela como positiva entre os afro-peruanos e afro-brasileiros. Nos EUA, a professora revelou que não conseguiu realizar sua pesquisa da forma como havia concebido, em razão de um certo conflito e tensão entre negros e latinos, na região onde ela residia. Camila destacou a importância do I SEMILLAH como elemento central de se repensar a América Latina e desafiar as fronteiras do Brasil com a região, uma vez que nosso país não se considera parte dela. E refletir acerca dessa problemática a partir de um evento organizado por mulheres negras.

O seminário apresentou em seguida um filme intitulado “Rostos familiares, lugares Inesperados – uma diáspora africana global”, da professora Sheila Walker, Diretora Executiva da ONG Afrodiáspora, especialista em pensar a diáspora da população negra no mundo. A professora Sheila é organizadora do livro “Conhecimento desde dentro – os afro-sul-americanos falam de seus povos e suas histórias”. Trata-se de uma antologia de depoimentos e reconhecimento de identidades de diversos negros situados nos mais variados continentes, como a África, America Latina, Europa e na Ásia. De acordo com a professora Fernanda Felisberto, o documentário exibido abordou resumidamente essas questões.

O I SEMILLAH prosseguiu no segundo dia com a apresentação da Mesa Interdisciplinar “Negritude, Trânsitos linguísticos e Poder na diáspora africana”, com a participação de Ricardo Riso, Mestre em Relações Étnico-Raciais do CEFET/RJ; Viviane Conceição Antunes, doutora em Letras Neolatinas (Espanhol) pela UFRJ e professora do Deptº de Letras do IM/UFRRJ; e Bocafloja , da ONG Quilomboarte, originário do México/EUA.

Após a apresentação de grupos de trabalho, houve a exibição de dois documentários: “Nana dijo” , de Bocafloja e “Anamnese”, de Clementino Júnior, cineclubista do CAN – Cineclube Atlântico Negro. Às apresentações dos filmes, seguiu-se uma roda de conversa com os diretores Bocafloja e Clementino Júnior. O mediador do debate foi o professor do IM/UFRRJ, Valter Filé.

No terceiro e último dia do seminário, a Mesa Interdisciplinar “Estado, Movimentos Sociais e Feminismos Negros no espaço Latino-Afro-Hispânico” contou com as participações das professoras Joselina da Silva, do Instituto de Educação da UFRRJ; Susana Matute Charum, diretora para populações negras do Ministério da Cultura do Peru e a professora de Angola Luzia Moniz, da Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana.

A professora Joselina da Silva explicou que sua intervenção teve por base uma pesquisa sua ainda em andamento relativa ao seu Pós-doutoramento, baseada na Universidade Católica do Peru e que propõe-se a estudar a organização das mulheres negras na Argentina, Uruguai e Peru.  Ela ressaltou a lembrança da passagem dos 25 anos do I Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, ocorrido na República Dominicana, em 1992. Nesse evento, foi decidido que em 25 de julho passaria a ser comemorado como o Dia da Mulher Negra na América Latina e no Caribe. Nesse dia (25 de julho de 1992) houve uma grande marcha na República Dominicana, que reafirmou os direitos das mulheres negras dos dois continentes. A professora do Instituto de Educação da UFRRJ destacou em sua fala a especificidade e importância daquela data, pois normalmente toda celebração relativa às mulheres guarda uma relação com a dor e o sofrimento, lembrando alguma tragédia ocorrida. Outra lembrança relativa àquele ano de 1992 foi a passagem dos 17 anos da III Conferência Mundial contra o Racismo, ocorrida em Cuba.

Outra importante Mesa Interdisciplinar do último dia do encontro foi “Epistemologias negras na América Latina”, com as presenças da professora Geny Guimarães, do CTUR/UFRRJ, do professor Amarino Oliveira de Queiroz, Doutor em Teoria da Literatura pela UFPE e mestre pela UFRN e Julio Moracen, poeta, dramaturgo, diretor teatral e antropólogo, com doutorado pela UNIFESP.

Vice-cônsul de Angola presente ao I SEMILLAH

 Uma presença destacada no evento foi da Vice-cônsul de Angola no Brasil, a senhora Fátima Moniz. Ela definiu o encontro como um momento vital de reflexão sobre a participação política e social da mulher afrodescendente. Para ela, também serviu ao questionamento das políticas públicas que cada Estado deve direcionar a esse público negro e feminino, no tocante aos diferentes setores da sociedade e nas diferentes áreas do conhecimento e do saber. A vice-cônsul portuguesa ressaltou as mulheres atuantes nos movimentos sociais de seu país e que marcaram presença no seminário ocorrido na Universidade Rural de Nova Iguaçu. Fátima congratulou-se com as organizadoras do I SEMILLAH e espera que haja novos encontros como esse no decorrer dos próximos anos.

Como desfecho do evento, houve a exibição do filme “Uma Noite com a Familia Zevallos”, do cineasta carioca Phillip Johnston, seguida de uma roda de conversa com o próprio.

Por Ricardo Portugal – Assessoria de Imprensa do IM/UFRRJ


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