I Encontro de Pós-graduandos em História e Patrimônio mobiliza atenções no câmpus do IM/UFRRJ

Numa promoção conjunta do PPGPACS (Programa de Pós-graduação em Patrimônio, Cultura e Sociedade) e do PPHR (Programa de Pós-graduação em História) da UFRRJ I Encontro de Pós-graduandos em História e Patrimônio da UFRRJ mobilizou alunos e professores do câmpus do Instituto Multidisciplinar. Com o tema “Intelectualidades e saberes periféricos: Sujeitos e seus Lugares Sociais”, o evento aconteceu por dois dias seguidos (6 e 7 de novembro) debatendo e refletindo sobre diversos assuntos ligados à história e ao patrimônio cultural brasileiro. Muitas atividades, como minicursos, mesa de debates e simpósios temáticos atraíram a atenção e a participação da comunidade acadêmica.
Uma mesa de apresentação (foto) deu início aos trabalhos do I EPHP, composta por Júlio Sampaio, coordenador do PPGPACS e professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo do Instituto de Tecnologia da UFRRJ e por Simone Fontes, mestranda do PPGPACS e uma das organizadoras do evento. Ele enalteceu a importância da iniciativa do I EPHP, tendo em vista ser o PPGPACS atualmente o único programa de mestrado acadêmico do IM (que teve início a partir de janeiro de 2017, em caráter interdisciplinar), numa ação conjunta com o Programa de Pós-graduação em História. Ele informou que, por ser recente, o PPGPACS ainda não é conhecido pela ampla maioria dos estudantes e esse encontro de pós-graduandos em História e Patrimônio servirá também para a divulgação do PPGPACS. O professor Júlio Sampaio parabenizou a realização do encontro como fruto da iniciativa quase que exclusiva dos alunos do PPGPACS e PPHR.
Uma das organizadoras do I EPHP, a mestranda Simone Fontes destacou a parceria com a ANPUH-Rio (Associação Nacional de História- seção Rio de Janeiro), do IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e Museu Vivo do São Bento. Ela fez questão de frisar que o objetivo do encontro é a interatividade entre História e Patrimônio, entre o público docente e discente.

Museu Vivo do São Bento marca presença no I EPHP

Conversamos com os professores Marlúcia Santos Souza e Antônio Augusto Braz, professores da rede pública e ambos coordenadores do MVSB (foto), localizado em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Marlúcia nos contou sobre os projetos em andamento desenvolvidos pelo museu e trazidos para o contexto das atividades do I EPHP. Ela citou o programa “Jovens Agentes do Patrimônio”, que consiste na formação em Educação Patrimonial de adolescentes do Ensino Médio, dentro de salas de aula, num esforço de valorização do estudo e conhecimento de nossa riqueza patrimonial. Outra ação é a exposição “Mulheres em Movimento da cidade de Duque de Caxias”, em parceria com o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. Trata-se de uma homenagem às 15 mulheres militantes feministas do município, que atuaram em movimentos sociais de luta pela afirmação e conquista, em Duque de Caxias, de direitos pela educação, pela infância, pela cidadania das mulheres e contra os preconceitos de raça, gênero e classe. Segundo a professora Marlúcia, todas são reconhecidas como heroínas a nível internacional. A exposição trouxe ao conhecimento do público as trajetórias de vida de mulheres como Odete Maria de Oliveira, Lídia Cunha, Estamira Gomes de Souza, Tânia Maria Sales Moreira, Regina Topázio de Souza, Maria de Lourdes, entre outras lutadoras pelas causas populares.
Outro projeto interessante desenvolvido pelo Museu Vivo do São Bento é o grupo de capoeira, que promove a integração social e comunitária entre jovens de diversas gerações. Há também diversas iniciativas em parceria com os espaços de patrimônio e memória da cidade de Duque de Caxias, como o Centro de Cultura Nordestina, as Mulheres Artesãs, etc.
Ela explicou que o Museu Vivo do São Bento tem atualmente 12 anos de existência oficial. Ele está localizado em São Bento, segundo distrito de Duque de Caxias, caracterizando-se como um museu de percurso a céu aberto (ou museu-território), onde os visitantes (alunos de escolas públicas e particulares, turistas e pessoas interessadas) percorrem a pé diversas edificações consideradas como patrimônio local da região, e dessa forma, tomam conhecimento dos episódios que vão sendo narrados pelos guias do MVSB, incluindo no roteiro um pouco da história da Baixada Fluminense. Entre os diversos locais alvos de visitação, estão sítios arqueológicos de sambaquis, datados de 4.000 a 6.000 anos, a Ordem de São Bento (edificação religiosa tombada como patrimônio histórico nacional na década de 50), e as áreas de preservação ambiental municipais e federais situadas em Duque de Caxias.
O MVSB surgiu graças a atuação de professores de História e de outras disciplinas da rede pública de Duque de Caxias, que começaram a realizar, junto com seus alunos, trabalhos de campo voltados para a pesquisa histórica da região. Marlúcia frisou que o Museu Vivo do São Bento trabalha a questão do patrimônio não apenas através da pesquisa dos vestígios históricos mais antigos, mas também os sinais das ocupações mais recentes, transitando entre o passado e o presente. Ela afirmou que um dos patrimônios mais valiosos que o MVSB luta para preservar é a vida humana, numa perspectiva arqueológica, histórica e ambiental.

Outro coordenador do Museu Vivo do São Bento é o professor Antônio Augusto Braz, que saudou a iniciativa do encontro promovido pelo PPGPACS E PPHR, definindo-o como um diálogo importante do movimento da museologia social com o ambiente acadêmico da universidade. Segundo ele, não foi a primeira vez que o Museu Vivo do São Bento visita a UFRRJ. Há quatro anos, a instituição participou do 5º Congresso de Professores e Pesquisadores de História da Baixada Fluminense, promovido pela Universidade Rural em parceria com a rede de museologia de Duque de Caxias. Ele participou da roda de conversa com os participantes do I EPHP, onde discorreu sobre as propostas do MVSB. Dentre elas, o professor Antônio Augusto abordou a respeito da museologia social, uma forma de museologia que não se limita a uma fruição do que é exposto dentro do museu. Ao contrário disso, o museu cumpre um papel de fomentador e debatedor das questões sociais do território onde está inserido. Por ser um museu de percurso, ele também funciona com um forum indutor de debates sobre diversas questões sociais e históricas, estimulando a reflexão sobre a cidadania.
De acordo com o coordenador do Museu Vivo do São Bento, a instituição inspira-se em experiências semelhantes de outros museus, como o Museu da Maré, Museu das Remoções de Jacarepaguá e o Museu do Horto.
Duas outras atividades marcaram também a presença do MVSB no encontro de pós-graduandos em História e Patrimônio: a exposição “Mulheres em Movimento da cidade de Duque de Caxias” (foto), em homenagem às 15 mulheres ativistas do movimento social da Baixada, que enfrentaram o preconceito de gênero, de raça e classe, na luta de resistência e afirmação dos direitos das mulheres. E a exposição de fotografias do projeto “Lentes da Memória”, do fotógrafo Filipo Tardim, com reproduções de imagens (foto) retratando diversos locais históricos da região da Baixada Fluminense. Após a roda de conversa sobre o Museu Vivo de São Bento, houve a apresentação do Grupo de Capoeira “Nova Geração” (foto), de Santa Cruz da Serra (distrito de Duque de Caxias), sob a liderança de Mestre Izaías.

Mesa de abertura do I EPHP

Na mesa de abertura do encontro “Patrimônio Cultural: avanços e desafios”, estiveram presentes o professor e museólogo Mário Chagas, coordenador técnico do Museu da República, a professora Raquel Alvitos, do PPGPACS e do Departamento de História do IM/UFRRJ e a professora Marlúcia Santos Souza, coordenadora do Museu Vivo do São Bento.
Para o professor Mário Chagas, um dos principais desafios para a preservação do patrimônio é dar a esse esforço um caráter participativo. Ou seja, não faz mais sentido atualmente a preservação patrimonial ser desenvolvida apenas “de cima para baixo”, com reduzido envolvimento da população. Ele disse também não ver cabimento no desenvolvimento de uma política preservacionista que não leva em conta a representatividade dos interesses, desejos e anseios das comunidades. Dentro dessa perspectiva, ele ressaltou que há grandes avanços consolidados no país e como exemplo citou a Política Nacional de Museus, implementada ao longo dos últimos anos. Outro exemplo de avanço citado por ele foi o lançamento, em 1997, da Carta de Fortaleza, instrumento que apontou na direção da elaboração de uma política de preservação do patrimônio imaterial brasileiro. Mário Chagas alertou para que tais avanços sejam garantidos e tenham continuidade como política oficial, apesar do desmonte atualmente promovido pelo atual governo federal, na esfera pública.
Ele fez questão de frisar que não basta apenas a preservação do chamado “patrimônio monumental”, representado pelos grandes prédios e edificações de grande porte. Mas o maior desafio nesse processo é a conexão com a vida comunitária, com o cidadão comum. Ele apontou também como grande avanço nessa área a grande reunião ocorrida em 2007 em Salvador, na Bahia, com a criação do Programa de Museologia chamado Iber-Museus, que tornou possível uma articulação do esforço de preservação patrimonial com os países ibéricos e da América Latina. E todo o movimento preservacionista no continente americano foi, segundo ele, inspirado pela política cultural e patrimonial brasileira (principalmente a Política Nacional de Museus), desenvolvida ao longo dos últimos vinte anos. Hoje, há um programa em diversos países da América Latina conhecido como “Cultura Viva Comunitária”, que inspirou-se na política cultural brasileira. Para o museólogo, o Brasil pensou durante muito tempo a ideia de Patrimônio sob uma perspectiva patriarcal e puramente patrimonialista. No entanto, ele defendeu que é chegada a hora de compreendermos o Patrimônio como uma “herança fraterna”, uma ação possível e necessária na direção de pensar e construir o que chamou de “Fratrimônio”, de uma herança que seja partilhada aqui e agora, por toda a sociedade humana.
A professora Raquel Alvitos é de opinião que o grande desafio dos tempos atuais é pensar a questão do patrimônio de uma forma mais ampliada. Ela analisou que no Brasil ainda se trabalha com essa questão com premissas bastante tradicionais e citou o exemplo do Museu Vivo de São Bento como ferramenta de intervenção social, que rompe com essa limitação. Para a professora do PPGPACS, o mais importante do trabalho desenvolvido pelo MVSB é difundir a ideia do Patrimônio não apenas como um conjunto de referenciais de memórias e de identidade cultural, mas sobretudo como instrumento de apropriação dessas memórias e dessa identidade, necessitando para isso de um trabalho de conscientização. Raquel assinalou também que essa noção de patrimônio cultural no Brasil ainda é muito recente, vinda a partir da própria sociedade civil. O desafio então para essa discussão poder avançar é o diálogo com aquilo que precisa ser apropriado pelas pessoas e limites para pensar aquilo que caberia ao campo de uma memória social mais coletiva. Ela comentou a visão do professor Mário Chagas, que defende a substituição do termo “Patrimônio” para “Fratrimônio” como uma forma. Segundo a professora Raquel, o que Mário Chagas está propondo é a difusão do patrimônio como uma chave de conscientização. O importante é entender que o patrimônio é um lugar para agregar. Ou seja, não se estuda um lugar como Vila de Cava apenas para estudar Vila de Cava, mas para buscar uma memória mais profunda de uma sociedade sem memória, que foi silenciada e estereotipada como no caso da Baixada Fluminense. Por isso, na opinião dela, o patrimônio é um lugar para a construção de fraternidades sociais, uma outra dimensão que está embutida na noção de patrimônio cultural. Um exemplo disso é uma festa religiosa, que será revivida não por ela em si, mas pelas redes de solidariedade que ela traduz naquilo que é a própria constituição dela.
A professora do PPGPACS voltou a enfatizar a importância de se investir em eventos relacionados à discussão do patrimônio, que agreguem e que promovam parcerias. Mas, ao mesmo tempo, necessário se faz um trabalho interno que mobilize a própria universidade e os alunos para a importância desta temática.

Lançamento do livro sobre a Feira de São Cristóvão

Já no segundo dia do I EPHP, houve o segundo lançamento do livro “Territórios culturais do Rio de Janeiro: a Feira de São Cristóvão” (foto). O primeiro lançamento ocorreu em 22 de setembro no Memorial Luiz Gonzaga, dentro da própria Feira de São Cristóvão. Uma das organizadoras da publicação é Luitgarde Cavalcanti Barros, doutora em Antropologia e professora aposentada da UERJ. Segundo ela, o maior fator de contextualização do livro é o momento presente e o que a motivou a aceitar o convite para participar do projeto coordenado pela professora Elis Angelo se deu pelo fato de Luitgarde já haver estudado a Feira de São Cristóvão na década de 70, por ocasião de sua dissertação de mestrado. Naquela época, a Feira funcionava fora do Pavilhão de São Cristóvão. Dessa forma, o convite feito pela professora Elis para falar da feira foi recebido por ela como um desafio, mas condicionou sua participação na possibilidade de escrever um texto. Em seu artigo para o livro em questão, a professora Luitgarde abordou a história dos diversos estudos existentes sobre a FSC. Já na década de 90, Luitgarde contou que esteve lá junto com a professora Sylvia Nemer e notou as muitas diferenças que marcavam o local, que passou a funcionar dentro do pavilhão. Para ela, a importância de se estudar a Feira de São Cristóvão está relacionada ao registro de um referencial cultural e social da população nordestina e seus descendentes que residem no Rio de Janeiro e, principalmente, na Baixada Fluminense. Quais os costumes de antigamente, a culinária, a dança, as crenças, a música e os valores que embasavam uma forma nordestina de pensar, falar e agir. Todo esse universo foi devidamente registrado. A professora Luitgarde buscou contato com os compositores Azulão, Raimundo Santa Helena e outros, a fim de saber se ali na FSC ainda subsistia algum vestígio da crença fervorosa no Padre Cícero, que era seu objeto de estudo, ou seja, a religiosidade do povo nordestino. Ela enfatizou que a Feira de São Cristóvão é, portanto, um local onde os nordestinos se sentem em casa.
Outra professora que participou como autora de um dos artigos do livro foi Sylvia Nemer, pesquisadora e doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ e em História Social da Cultura pela PUC/RJ. Para ela, o grande foco dessa obra literária é a questão do patrimônio. E a FSC hoje em dia, tem uma configuração de patrimônio bem diferente da época em que funcionava no campo de São Cristóvão. O estudo da professora, que é uma parte de sua tese de doutorado sobre a FSC defendida no Departamento de História da PUC/RJ, apresenta um histórico sobre a feira, desde o momento em que ela surge no campo de São Cristóvão na década de 40 até a transferência para dentro do Pavilhão, registrando as diferenças que marcaram essa transição. Ela contou que quando foi à FSC a convite da professora Luitgarde, estava pesquisando a Literatura de Cordel e ficou encantada com a presença do Cordel naquela época, na feira. Quando anos mais tarde (já no Pavilhão) retornou com seus alunos da Oficina de Cordel, o mesmo não mais existia. O que havia era apenas uma banquinha no interior do Pavilhão, vendendo folhetos de Cordel. E foi justamente o porquê do desaparecimento do Cordel de um dos principais locais da cultura nordestina do RJ que acabou virando o tema da pesquisa de seu segundo doutorado. O que se pode constatar desse fenômeno é que a FSC, quando saiu do campo para o Pavilhão de São Cristóvão, deu ênfase a uma cultura mais espetacularizada, em detrimento das culturas mais tradicionais (entre elas o Cordel), que ficaram marginalizadas no contexto da feira.
A professora Sylvia Nemer frisou que a Literatura de Cordel foi a fonte dela para pensar sobre a história da FSC. Em seu artigo, ela começa fazendo uma referência ao filme do cineasta Roberto Pires, “A grande feira”, que aborda o desaparecimento da feira de Água de Meninos, em Salvador. Em seguida, a autora entra na história propriamente dita da FSC, a partir do processo de migração nordestina e dos cordéis, listando alguns títulos de autoria dos poetas Azulão, Apolônio Alves dos Santos e outros que atuaram na FSC.
Um dado interessante no artigo da professora Sylvia é o registro do “Cantinho da Poesia”, que existia debaixo das árvores do Campo de São Cristóvão, sendo o espaço onde os poetas apresentavam o Cordel na feira. A partir da passagem da FSC para o interior do Pavilhão, a professora notou um progressivo esvaziamento do Cordel, pois os poetas já não se interessavam mais em falar ou participar da feira, em razão da interferência do Poder Público na gestão do local e também por entenderem que a feira havia perdido a sua função original, como elemento de transmissão de memórias compartilhadas da comunidade nordestina migrante do Rio de Janeiro.
Nesta passagem, ela informou que sua pesquisa baseou-se em pesquisa de matérias publicadas na imprensa e nos documentos fornecidos por Marcos Lucena e Raimundo Santa Helena. Lucena, um poeta cordelista, chegou a atuar um tempo como gestor da FSC. Ela lamentou a inexistência de uma memória institucional do local e informou que o cantor e compositor Luiz Gonzaga chegou a se apresentar na FSC, quando a mesma existia no campo de São Cristóvão.
Outra autora de um dos capítulos do livro sobre a Feira de São Cristóvão foi a professora Maria Angélica, do curso de Turismo do IM/UFRRJ. Escrito em parceria com a professora Elis Angelo, o artigo versa sobre gastronomia, a comida que é vendida na FSC. Ela contou que conversou com 7 feirantes, entre garçons e proprietários de restaurantes no interior da feira, para saber das preferências gastronômicas dos clientes, como a comida é preparada, etc. Eles traçaram um paralelo sobre o quê mudou em termos de culinária, quando a feira passou do campo para dentro do Pavilhão de São Cristóvão. Um aspecto que provocou uma mudança radical na venda dos alimentos foi a questão da Vigilância Sanitária, que passou a atuar na fiscalização da higiene no preparo dos quitutes nordestinos quando a feira passou para dentro do Pavilhão. Antes, não havia essa preocupação, pois a comida era preparada na frente dos clientes, ao ar livre. A carne de sol era dependurada em varais e muitos animais vivos eram vendidos na feira. Essa mudança provocou uma certa perda de autenticidade do local. Um dos entrevistados chegou a afirmar que a comida tinha mais gosto porque era temperada “com poeira”, conferindo segundo ele um sabor mais “apurado” aos alimentos. Outro dado que chamou a atenção foi a maior presença masculina nas cozinhas dos restaurantes, contrastando com a antiga realidade da feira, onde as mulheres predominavam na preparação dos alimentos quando a FSC funcionava no campo de São Cristóvão. A professora Maria Angélica também descreve em seu artigo que o cardápio foi mudando aos poucos. Antigamente, havia poucas opções (baião de dois, buchada, sarapatel, tripa lombeira). A comida chegava semipronta e o cliente assistia o preparo dela na frente dele. Agora, as opções gastronômicas aumentaram e o cliente só verá a comida quando o garçom trouxer o prato à sua mesa. Ela contou também que, em função da segunda geração dos filhos de nordestinos já terem nascido no Rio de Janeiro, o cardápio passou a contemplar iguarias estranhas à culinária nordestina, como batata frita, feijão tropeiro e frango a passarinho, que vendem muito atualmente nos restaurantes no interior da FSC. Uma das comerciantes lamentou o fato de não poder mais vender frango a molho pardo e buchada em razão de não haver fornecedor que possua as licenças que a Vigilância Sanitária exige. Mas ela tem conhecimento de alguns restaurantes que não são visados pelas autoridades sanitárias que ainda vendem tais produtos. A professora Maria Angélica, que foi a responsável pelas entrevistas, explicou que muita gente com quem conversou vai à FSC para matar saudades de uma determinada iguaria específica, que não encontra em nenhum outro lugar fora da FSC.
A estudante e pesquisadora do PPGPACS/IM/UFRRJ Maiara Destri também é autora de um artigo do livro sobre a FSC. Ela o escreveu em parceria com seu orientador da graduação, professor Bruno Bórgia, e fala sobre a formação da FSC e sobre a presença nordestina na cidade do Rio de Janeiro, desde a década de 40 até a mudança para dentro do Pavilhão, incluindo todo o processo de resistência e regularização do local. Ela ressaltou que o livro é uma obra riquíssima, pois retrata a pluralidade da feira em diversos aspectos culturais, sociais e econômicos, sendo um espaço de convivência e troca de experiências não apenas entre a comunidade nordestina, mas também do povo carioca e da Baixada Fluminense que freqüenta aquele território.
Em suma, o livro “Territórios Culturais do Rio de Janeiro: a Feira de São Cristóvão”, organizado pelas professoras Elis Angelo e Luitgarde Cavalcanti Barros registra a ancestralidade das famílias nordestinas residentes na Baixada Fluminense, tendo como mote a famosa Feira de São Cristóvão.
A professora Isabela Fogaça, do Departamento de Turismo do IM/UFRRJ e do mestrado em Patrimônio do PPGPACS, coordenou a mesa de lançamento do livro.

Duke University presente ao I EPHP

Na mesa “Conversa com Duke University” (EUA), estiveram presentes os alunos doutorandos Gray Fielding Kidd e Stephanie Reist, que foi coordenada pelo professor Felipe Ribeiro, com doutorado em História. Ele tem dialogado com diversos pesquisadores e orientado diversos trabalhos sobre a história da Baixada Fluminense. Felipe destacou a parceria entre a UFRRJ e a Duke University, pois graças a ela o olhar sobre essa região foi bastante impulsionado. Nessa mesa, foram apresentadas os diversos interesses de pesquisa daquela universidade americana, como as perspectivas de estudo sobre a Baixada Fluminense. Em sua palestra, Felipe também informou que ele, o professor Jean Sales, o professor Álvaro do Nascimento e o Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação, professor Alexandre Fortes, estão organizando um dossiê sobre a história da Baixada para a revista do Arquivo Geral da cidade do Rio de Janeiro. A pesquisa sobre a região vai abarcar desde o final do século 19, no pós-abolição da escravidão, se estendendo até o século 20.
Ele chamou a atenção para uma situação complicada relacionada à região, e que prejudica até mesmo as pesquisas que são realizadas. Ela ocorre quando se associa erroneamente a ausência do Estado em políticas públicas na Baixada à ideia de que ela é de menor importância. Esse é um estigma negativo que acompanha a região há muitas décadas, uma vez que ela não se resume naquilo que se convencionou chamar de “cidade dormitório”, onde os trabalhadores passam a noite e no dia seguinte deslocam-se para trabalhar no Rio de Janeiro. Pelo contrário, a Baixada Fluminense também é um local de trabalho, onde várias empresas importantes estão instaladas, como a Fábrica Nacional de Motores (FNM), a Refinaria Duque de Caxias (Reduc), a Bayer do Brasil, a Compactor,e muitas outras. O professor Felipe acrescentou que as pesquisas que estão sendo desenvolvidas por pesquisadores buscam desconstruir essa imagem negativa que foi imposta contra a região. Ele lembrou que também é uma área de muitos conflitos rurais, onde há posseiros e camponeses lutando pela posse da terra. Por tudo isso, é preciso entender esse pedaço do Brasil na sua complexidade social, política e econômica, barrando os estigmas contra a ideia de uma região onde só impera a violência, contra os nordestinos que residem aqui, contra os negros e as religiões de matriz africana, e também contra os pobres, que compõem a maioria de seus habitantes. Isso sem falar no fato da região também ser estigmatizada como a “terra dos coronéis”, que mandam e desmandam na política local. O professor Felipe Ribeiro afirmou que essas imagens foram ao longo do tempo construídas pela mídia, realçando em reportagens a questão da violência.
A aluna Stephanie Reist, da Duke University, disse que sua tese de doutorado está relacionada à pesquisa sobre a luta do povo da periferia da Baixada, configurando-se numa investigação sobre a relação entre o Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense e estudando as iniciativas da população local na busca por melhores condições de vida no local. O estudo dela busca resgatar a história desse povo lutador, ajudando a reconceber a auto-estima por morar e trabalhar aqui. Foi também com essa preocupação que Stephanie produziu o filme “O custo da oportunidade”, junto com o rapper e animador cultural Dudu de Morro Agudo. A película fala especificamente sobre a chegada da UFRRJ a Nova Iguaçu, com a abertura do Instituto Multidisciplinar. Embora não tenha sido a primeira universidade pública na Baixada, o IM foi construído levando em conta a ideia de resgate da cidadania de um povo tradicionalmente marginalizado e excluído do acesso à Educação de qualidade.
Por sua vez, o estudante Gray Fielding Kidd, também da universidade norte-americana de Duke, falou sobre sua tese de doutorado. Ele está pesquisando sobre a emergência da luta pela restauração da democracia no estado de Pernambuco, mais especificamente sobre a trajetória política do ex-governador Miguel Arraes de Alencar. Seu projeto ainda está em andamento, com a busca de informações sobre as bases de apoio de Arraes na grande Recife e no interior do estado pernambucano, que incluíam usineiros, comerciantes e trabalhadores rurais.

Mesa de encerramento do evento

Na mesa de encerramento “História Hoje: retrocessos e desafios”, participaram o Pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação, professor Alexandre Fortes, o professor do curso de Graduação em História do IM/UFRRJ e do programa de Pós-graduação em História (PPHR) da mesma universidade, Álvaro Nascimento, e o professor Paulo Fontes, do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas.
Antes dos integrantes da mesa começarem suas palestras, houve uma apresentação da Folia de Reis Sete Estrelas do Rosário de Maria, vindos da cidade vizinha de Mesquita para prestigiar o evento. De acordo com Simone Fontes, da comissão organizadora do I EPHP, a exibição do grupo foi um protesto pacífico para chamar a atenção de todos sobre a importância da preservação do patrimônio cultural brasileiro. O líder da Folia de Reis Sete Estrelas do Rosário de Maria é o Mestre Dinho. Ele contou das dificuldades de manter esta manifestação cultural, também conhecida como “reisado” (que já dura 150 anos) no município de Mesquita, na Baixada Fluminense, sem dispor de nenhuma forma de incentivo ou apoio.

Segundo Mestre Dinho, uma missão atualmente mobiliza a Folia de Reis Sete Estrelas do Rosário de Maria: o grupo, ao lado de outras Folias de Reis, está reunindo a documentação necessária para reivindicar o registro dessa manifestação de cunho religioso como Patrimônio Cultural Brasileiro, junto ao IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O processo já se encontra em tramitação naquele órgão do governo federal que cuida do patrimônio histórico e cultural do país. A iniciativa dos grupos de Folia de Reis junto ao IPHAN conta com o apoio integral da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Em sua fala, o Pró-reitor da Rural saudou a organização do I Encontro de Pós-graduandos em História e Patrimônio, parabenizando a todos os envolvidos pela iniciativa do evento, principalmente os estudantes do PPGPACS e do PPHR, que se mobilizaram para que a atividade fosse viabilizada. Ele elogiou a criatividade da ação de conectar, no âmbito da programação do I EPHP, as duas vertentes do saber: o acadêmico, com os professores discorrendo sobre diversos assuntos e o popular, representado pelas exibições da Roda de Capoeira e da Folia de Reis. O professor Fortes assinalou que eventos como esse reforçam a missão do IM/UFRRJ como universidade pública na Baixada Fluminense, quando os esforços se juntam para criar e afirmar um espaço de expressão do conhecimento e dos saberes populares, ajudando a dar voz e visibilidade aos setores excluídos e ajudando a resgatar a identidade, a história, a cultura e a luta do povo da região por cidadania e pela garantia de seus direitos.
O professor Álvaro Nascimento, autor do trabalho de pesquisa intitulado “A agência negra no pós-abolição brasileiro” falou sobre a dificuldade atual que a historiografia tem se debatido, a de superar a masculinidade hegemônica em seus temas e a questão do racismo. Ele se queixou que em muitos dos encontros dos quais tem participado como debatedor e conferencista, não se põe em evidência essas duas questões graves, nem ao menos como uma polêmica a ser enfrentada em suas pesquisas. O professor Álvaro, que é negro, associou o fato à história pública recente do país. Segundo ele, quando se fala de trabalhador, esquece-se da trabalhadora, tão ou mais explorada no mercado de trabalho do que seu semelhante do sexo masculino. Felizmente, segundo o pesquisador, isso vai ficando cada vez menos recorrente, já que muitos trabalhos de pesquisa no campo da História já tratam abertamente dos problemas das mulheres e dos negros e negras na sociedade brasileira. Ele revelou que a chegada da imigração italiana em São Paulo tornou quase invisível a presença do negro como explorado do sistema, que foi praticamente riscado dos registros dos livros de História.
Álvaro também destacou que, no Brasil, o racismo se dá também nas abordagens policiais, pois pelo senso comum e na visão preconceituosa das autoridades do Estado, negro nesse país é sinônimo de “bandido”.
Outra evidência desse racismo é a presença ínfima de negros como professores de História em universidades públicas. Ele citou casos como o da UFF, em Niterói, que somente agora recebeu um negro para atuar como professor. Na UNIRIO, existem apenas dois mestres da raça negra. Ele lamentou o que chamou de uma certa “elite de historiadores brancos”, que não vê isso (a questão da raça) como um problema e que não aborda o tema em suas pesquisas ou em salas de aula, com seus alunos. E o pior de tudo é que são pessoas de gerações recentes, inclusive da própria geração do palestrante, que sentem dificuldade de falar sobre a violência do racismo na sociedade.
Uma reflexão proposta por ele é a pesquisa sobre como a História pública pode contribuir para mudanças de situação, na conjuntura atual do país. O professor Álvaro defendeu que se volte a promover reflexões e questionamentos sobre a nossa realidade racial.
Em sua intervenção, o professor Paulo Fontes aproveitou para agradecer o convite para participar do I EPHP e saudou a feliz coincidência de sua presença acontecer justamente no momento do lançamento do documentário “Memórias de um Rio fabril”, produzido pelo Laboratório de Estudos do Trabalho do CPDOC/FGV e que dialoga com a temática do encontro de História e Patrimônio da UFRRJ. Nessa discussão sobre o conceito de História Pública, surgiu a ideia do filme que resgata a memória industrial do Rio de Janeiro. Além disso, Fontes ressaltou que o documentário também mantém um diálogo muito direto com as discussões e reflexões feitas na Baixada Fluminense.
Após a exibição da película de 25 minutos, ele explicou que a motivação para se realizar esse filme surgiu por força do apagamento da memória oficial e industrial do Rio com o fechamento de diversas fábricas, o que de certa forma tornava difícil a compreensão do que hoje a cidade se tornou, pois a cidade adquiriu com o tempo contornos de “cidade turística”, graças à paisagens naturais exuberantes. O professor da FGV disse que as indústrias que existiam na cidade também ajudaram a fortalecer e consolidar a imagem de um Rio de Janeiro produtor de riquezas e gerador de trabalho para a população trabalhadora. Ele reforçou a ideia de que esse filme articula a memória operária com a ideia de patrimônio do passado industrial carioca, no contexto de estudo da História Pública e do diálogo com as reflexões acerca do patrimônio contemporâneo. O professor Paulo Fontes comentou também que o filme “Memórias de um Rio fabril” tem o objetivo de fomentar essa discussão para além dos muros da universidade e com isso ampliar esse debate sobre a questão patrimonial com a sociedade. Ele observou que apesar de ter uma história tão rica, o Brasil tem uma cultura histórica muito complicada e difícil, com poucos incentivos dos setores governamentais, fazendo com que o conhecimento histórico não seja difundido e divulgado de forma ampla. Segundo o professor, o filme produzido pelo CPDOC da Fundação Getúlio Vargas se propõe a abertura de novas iniciativas de discussão sobre o patrimônio e a memória brasileira.

Por Ricardo Portugal – Assessoria de Imprensa do IM/UFRRJ

 

Mesa de apresentação do I EPHP

Mesa de apresentação do I EPHP

Coordenadores do Museu Vivo do São Bento

Coordenadores do Museu Vivo do São Bento

Exposição fotográfica de Filipo Tardim

Exposição fotográfica de Filipo Tardim

Exposição "Mulheres em Movimento em Duque de Caxias"

Exposição “Mulheres em Movimento em Duque de Caxias

 

Roda de capoeira - Grupo Nova Geração

Roda de capoeira – Grupo Nova Geração

Livro sobre a Feira de São Cristóvão

Livro sobre a Feira de São Cristóvão lançado no I EPHP

Roda de conversa sobre o MVSB

Roda de conversa sobre o MVSB

Mesa com a Duke University

Mesa com a Duke University

Folia de Reis Sete Estrelas do Rosário de Maria

Folia de Reis Sete Estrelas do Rosário de Maria

Mesa de encerramento do I EPHP

Mesa de encerramento do I EPHP

 


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