IM/UFRRJ promove debate sobre Ensino Médio e acesso ao Ensino Superior

Palestrantes da mesa de debates sobre Ensino Médio

Dentro da programação que inaugurou o segundo semestre acadêmico de 2017, o Instituto Multidisciplinar (câmpus Nova Iguaçu) da UFRRJ promoveu, no dia 16 de agosto, a mesa de debate “Ensino Médio na Baixada Fluminense: a expectativa de ingresso no ensino superior”. O evento fez parte da Semana de Integração Acadêmica do IM em parceria com a Duke University, dos EUA, para recepcionar os novos calouros da universidade. A mesa foi coordenada pela professora do IM Márcia Pletsch, doutora em Educação e pesquisadora do CNPq, e contou também com as presenças do professor John French, da Universidade de Duke(EUA) e historiador da América Latina moderna, com especialização no Brasil; do professor Alexandre Rodrigues de Assis, professor de Matemática formado pela UERJ, mestre em Educação e que desenvolve pesquisas na área de formação de professores do ensino fundamental e matemática investigativa; da professora Simone da Conceição Januário, formada em Letras pela UFRRJ, professora do ensino fundamental das redes estadual e municipal do RJ, e o aluno de graduação da Universidade de Duke, na Carolina do Norte (EUA), Mitchell Ryan.
A Professora Márcia Pletsch deu início ao evento saudando os convidados, o público presente e principalmente aos alunos calouros da UFRRJ. Ela aproveitou para também se solidarizar com os alunos, professores e técnico-administrativos da UERJ, que estão há quatro meses sem receber seus salários, motivo pelo qual aquela universidade está impossibilitada de retomar as aulas do semestre. A professora Márcia também solidarizou-se em sua fala com os professores de Duque de Caxias, que há duas semanas foram alvo de violência policial, quando protestavam dentro Câmara Municipal local contra a perda de conquistas e direitos assegurados em seu plano de carreira.
O estudante Mitchell Ryan abordou alguns elementos de sua pesquisa aqui na Baixada Fluminense. Ela se baseou na importância da existência de uma universidade pública na região, como alavanca de desenvolvimento regional e justiça social para as populações do entorno, vítimas de um processo de desigualdade e exclusão no acesso aos direitos básicos, como a Educação e a qualidade de vida. Ele ressaltou que o futuro de nosso país está ligado ao aumento do grau de acesso das populações ao ensino médio e superior de qualidade. Mitchell citou o caso específico da Baixada Fluminense, com seus 13 municípios, como exemplo flagrante desse contexto de alto índice de exclusão, desigualdade social e de práticas políticas clientelistas, onde o acesso à Educação Pública deveria ser alvo central da preocupação básica do Poder Público. E esse panorama de abandono predomina, apesar da região ter um percentual do PIB significativo no estado e de congregar uma das maiores concentrações de jovens do país. O estudante norte-americano acentuou que essa população alimenta a produção econômica local e regional e apenas uma parcela pequena desses jovens tem acesso ao ensino universitário. Ele destacou a importância desse intercâmbio educacional binacional entre a UFRRJ e a Universidade de Duke, que reuniu uma equipe de trabalho de dez estudantes americanos e doze brasileiros, além de oito docentes e dois técnicos administrativos e um rapper empreendedor. Em junho de 2016, o grupo realizou três semanas de trabalho cooperativo na Baixada Fluminense e em março deste ano 17 colaboradores visitaram a Universidade de Duke, nos EUA, para um intercâmbio de nove dias e um seminário que durou um dia inteiro, em 27 de março último. Mitchell ressaltou que as pesquisas da equipe mostraram que, na última década, o ingresso no ensino superior público e privado triplicou no país. Ele afirmou que o maior resultado dessa parceria foi a produção de um vídeo-documentário sobre o IM/UFRRJ, realizado pelo rapper, cineasta e educador comunitário Dudu do Morro Agudo e pela aluna americana Stephanie Reist, intitulado “O custo da oportunidade”, narrando as muitas dificuldades de alunos e seus familiares para conseguir ingressar numa universidade.
A segunda palestrante foi a professora Simone da Conceição Januário. Ela destacou para os novos alunos da Rural (e também para os veteranos) a nova visão de educação superior pública na região, proporcionada pelo Instituto Multidisciplinar, apesar de não ser a primeira universidade pública a funcionar na Baixada Fluminense, visto que a UFRRJ já existe no câmpus de Seropédica. No entanto, pode-se afirmar que o IM da Rural é a primeira universidade com visão do público da Baixada, que acolhe de fato e vai nos fazer pensar não apenas na formação acadêmica e científica, mas na fundamentação humanística dos alunos, contextualizada numa nova realidade social em benefício de uma região tão carente de cidadania. Ela contou que ingressou no IM/UFRRJ em 2011 e a partir de 2014, já cursando Letras, formou um coletivo ao lado de outros estudantes, trabalhando com encadernação manual e artesanal de livros e que posteriormente foi levada para a escola pública onde trabalha, no município de Paracambi. Como exemplo de escola pública que sofre com as barreiras impeditivas ao acesso dos alunos moradores da Baixada ao ensino público superior, a professora Simone apontou o “CIEP 152 – Garrincha, a Alegria do Povo”. Localizada no bairro paracambiense de Lajes, é uma escola que recebe grande parte dos estudantes oriundos do ensino médio do município, cuja perspectiva de ingresso de alunos ao ensino superior é muito pequena, dadas as características de distanciamento geográfico em relação aos pólos centrais universitários, impondo dificuldades de transporte e locomoção a quem alimenta o sonho de frequentar uma faculdade.
Nesse sentido, o principal desafio, segundo ela, é motivar os alunos a continuarem estudando, uma vez concluído o ensino médio. A professora Simone, ao lado de outros professores, tem buscado, através da leitura, que os alunos obtenham conteúdo informativo e formativo sobre os benefícios do prosseguimento dos estudos, visando à formação universitária. E isso foi importante pois, segundo ela, os estudantes secundaristas de Paracambi não tinham conhecimento, até então, da existência do câmpus da Rural em Seropédica e também em Nova Iguaçu, de como chegar até esses locais e também como definir a área de formação que desejam seguir.
Para se ter uma noção da importância desse trabalho, a professora Simone informou que Paracambi tem cerca de 70 mil habitantes, com aproximadamente 30% na fase escolar entre o último ano do ensino fundamental e o último ano do ensino médio.
Um trabalho específico de aproximadamente um ano e meio foi feito com um grupo de 20 alunos do CIEP Garrincha – A Alegria do Povo, num universo de 100 estudantes em vias de conclusão do ensino médio em 2016. O trabalho estendeu-se de 2014 até meados de 2015 e culminou com uma visita deles ao Instituto Multidisciplinar, que deu todo apoio a essa nossa iniciativa de estímulo e incentivo àqueles alunos que o visitavam pela primeira vez, na forma de participação em oficinas, debates e de uma palestra do professor Leandro, do curso de Pedagogia. E foi através desse processo que conseguimos trazer para esses estudantes uma nova visão não apenas da necessidade, mas também da possibilidade de acesso ao ensino superior público, fato para eles inalcançável, fora de suas realidades até então. E tudo isso surgiu graças a um acompanhamento específico. O resultado, segundo a professora, foi animador. De um total de 100 estudantes do CIEP, dez conseguiram chegar ao ensino superior. E desse total, três obtiveram acesso a universidade pública.
O grande desafio é, portanto, fazer com que a universidade alcance essas escolas municipais, estabelecendo um diálogo positivo que incentive a busca pelo ensino superior.
Em seguida, houve uma intervenção da Professora Márcia Pletsch, que informou que o IM/UFRRJ assumiu o PARFOR (Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica, criado durante os governos do PT), a partir de uma realidade dramática na Baixada: até 2009, cerca de 48% dos professores do ensino fundamental da região não tinham formação superior, além de um número expressivo de professores atuando fora de sua área de formação. E essa experiência sob a chancela do IM/UFRRJ foi considerada um caso de sucesso, formando várias turmas de Letras, História, Pedagogia e uma turma de segunda Licenciatura em Filosofia. Ela enfatizou a importância desse programa para a formação de professores da região, resultado da articulação dos sistemas públicos de ensino com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
O fato, segundo a professora Márcia, possibilitou que os professores da rede pública chegassem ao ensino superior e levassem ao conhecimento de seus alunos a existência de uma universidade pública de qualidade na Baixada Fluminense, ajudando a romper a barreira da desinformação, pois muita gente ainda não sabe da existência do IM/UFRRJ aqui na região e tampouco reconhece esse espaço de educação universitária pública como um direito da população local.
O orador seguinte foi o Professor Alexandre Rodrigues de Assis. Ele começou saudando os novos estudantes recém aprovados para a UFRRJ e declarou ser um morador da região, nascido aqui, mas que teve que ir buscar no Rio de Janeiro o estudo universitário que não havia aqui. E já naquela época (década de 80), segundo ele, já era comum a preocupação com os problemas ligados ao deslocamento para o Rio e à violência, além da questão das bolsas de estudo de iniciação à docência, como fator de extrema importância para o estudante carente seguir na vida acadêmica.
Ele afirmou que, naquela época, a preocupação central era pegar o aluno recém-saído da formação secundária, prepará-lo em 9 meses para fazer uma prova e jogá-lo numa faculdade, sem maiores questionamentos acerca de sua formação humanística. Mas isso não era o bastante, era preciso a formalização de um compromisso com a questão da cidadania crítica, para além da obtenção dos conhecimentos teóricos e científicos.
Com isso, o professor Alexandre reforçou a opinião das professoras Simone Januário e Márcia Pletsch, sobre a necessidade de estreitar a relação entre a universidade pública e a rede de ensino básico.
Ele citou então o caso do Instituto de Educação Rangel Pestana (IERP), localizado no centro de Nova Iguaçu e com uma realidade não muito diferente daquela citada pela professora Simone, relativamente à questão do acesso ao ensino público superior.
Nessa conjuntura, o principal questionamento que o professor Alexandre aborda é saber se estamos preparando o aluno para perceber a realidade sociopolítica e econômica que o cerca, capaz de fazê-lo refletir sobre questões como o aborto, o racismo, a liberdade de opção religiosa, entre outras, ou se estamos apenas preparando-o para o ingresso puro e simples no mercado de trabalho. E isso envolve a influência do Estado, como ente regulador dessas questões. Ele propôs uma reflexão de como e porquê esse processo acontece.
Um dado preocupante divulgado pelo orador e anunciado pelo Ministro da Educação – quando se referiu a quantidade de vagas no ensino público superior – foi de que existem de 20 a 30% de vagas ociosas nas universidades públicas no país. Naturalizar esse discurso do atual governo, segundo o professor Alexandre, é complicado. Com base nesse contexto colocado, ele indaga o porquê, então, de manter abertas universidades como a UERJ, e também o motivo de se abrir novos campus universitários, como o CEDERJ em Paracambi, o IM/UFRRJ em Nova Iguaçu, se temos um sistema de transportes (trens, metrô, ônibus) capaz de levar os estudantes que moram em regiões afastadas para os grandes centros urbanos?
Ele explicou que o atual IERP era formado pelo Grupo Escolar Rangel Pestana e o Instituto de Educação de Nova Iguaçu. Na década de 40, as duas instituições se juntaram e formaram o Instituto de Educação Rangel Pestana. Essa escola pública vinculada ao governo do estado do RJ, pede socorro. Houve no ano passado um processo de ocupação da instituição por seus alunos, que reivindicavam melhorias na qualidade do ensino e nas condições de funcionamento da escola, que como espaço de expressão era negado aos alunos. E os professores acompanharam e se juntaram a esse processo de questionamento. Muitas atividades foram desenvolvidas durante a ocupação do IERP, como rodas de conversa, oficinas de teatro, de grafiti, debates sobre o projeto “Escola sem Partido”, etc. Ele lamentou que no site do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) não constam dados sobre o IERP, impossibilitando a pesquisa sobre sua atuação. E não é avaliado porque, para o governo, trata-se de um “curso de formação de professores”, não entrando a questão da avaliação de seu desempenho. Essa avaliação só vai aparecer no Censo Educacional.
O professor concluiu afirmando que a Educação é um processo de desenvolvimento social. Não é a preparação para a vida. Ele é a própria vida!
A professora Márcia Pletsch fez alguns comentários a respeito da fala do professor Alexandre de Assis. Ela disse que, desde que chegou ao IM/UFRRJ, tem se preocupado em articular a universidade com a rede de ensino básico. Primeiro porque tal processo possibilita uma produção de conhecimento a partir da realidade política, social, econômica e cultural das comunidades locais, em seu entorno. E segundo porque favorece um intercâmbio entre esses dois nichos educacionais, facilitando o acesso dos jovens ao ensino superior. Ela destacou dois programas, que resultaram desse esforço conjunto. O PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência), no qual cerca de 500 bolsistas da Rural vêm atuando em escolas públicas da Baixada, e o Observatório de Educação Especial e Inclusão Educacional (ObEE), programa fundamental que também articulou ações entre o ensino superior e a educação básica, envolvendo não só alunos mas também professores da rede pública de ensino.
O professor John French alertou que existe de forma subjacente um modo alienado de pensar a Educação. Na verdade, todas as pessoas que se relacionam entre si (pais, mães, filhos, irmãos, primos, amigos, etc) estão fazendo Educação, uns com os outros. Ou seja, todos são educadores em algum sentido. Se você sabe alguma coisa que outra pessoa não sabe e passa para ela, o ensinamento acontece. A questão central é entender a Educação como uma ferramenta de libertação, não só individual mas também coletiva. A outra questão também importante é a da responsabilidade. Se você não sabe algo sobre determinado assunto, você deve aprender. Mas, em algum momento, você terá que ensinar a mesma coisa para outra pessoa. Trata-se de uma cadeia de informações e assim é que se estrutura a sociedade. O professor French assinalou que precisamos acabar com essa ideia de que somos “nós” os professores e os “outros”, os alunos. Na verdade, todas as pessoas “desempenham” o papel de professor quando ensinam e de alunos, quando aprendem alguma coisa.

Foto: os palestrantes da mesa de debate Professores Simone da Conceição Januário, John French, Márcia Pletsch, Alexandre de Assis e o estudante da Universidade de Duke (EUA), Mitchell Ryan

Por Ricardo Portugal – Assessoria de Imprensa do IM/UFRRJ


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